Biografia

O nosso Grande Zé

Por Ricardo Cravo Albin (texto de 2010)

1. PREAMBULO

Para velhos escritores como eu – por persistência do hábito continuado – as emoções fluem quase economicamente quando produzo textos que remetem a assunto tão íntimo para mim como a nossa música popular.

Há exceções. Quando o objeto do texto é de grandeza fora do parâmetro comum. Ou quando a admiração pessoal também ultrapassa os limites convencionais. Zé Menezes é precisamente uma dessas exceções. Ele não é um Zé qualquer, muito menos uma figura curial. Não, não. De curial o grande Zé Menezes não tem nada. Ele é canônico, quase um mito sacralizado de dimensão maior. Daqueles que só imaginamos para os grandes nomes já mortos da MPB. Ou seja, o nosso José Menezes de França é um raríssimo exemplo de mito vivo. Aliás – e diga-se logo a bem da verdade – vivíssimo e luxuosamente atuante aos quase noventa anos.

Mas – para quem não sabe (pela ignorância provocada mais por culpa da falta de memória e de respeito com que os velhos artistas quase sempre são tratados neste país) – vale dizer que o Grande Zé – como daqui por diante passarei a reverenciá-lo – mostrou o dedo de gigante desde criança. O gosto musical lhe fora agregado desde tenra idade, no momento em que ouviu tocar a banda de música de sua cidade natal – ele nasceu na cidadezinha cearense de Jardim, aos seis de setembro de 1921. Aliás, de seis para sete anos já tocava requinta, logo passando para o cavaquinho. Forjou-se na cidade – espalhando-se pela vizinhança toda – um fenômeno, um menino prodígio logo apelidado de Zé do Cavaquinho. Sua fama espraiou-se a tal ponto que aos nove anos a celebridade mirim exibiu-se para a celebridade maior de todo o Ceará, o Padre Cícero Romão Batista. Para o Padim Ciço, considerado um santo em vida, o Zé do Cavaquinho exibiu-se em plenitude: tocou nada mais nada menos que um choro de sua própria autoria, inapelavelmente afirmativo de seu talento e da força interna que o movia e o moveria no futuro, “Meus oito anos”. Eu costumo dizer que o Padre Cícero – ao botar a mão na cabeça do Zé do Cavaquinho agradecendo-lhe o choro “Meus oito anos” – abençoou o menino. E certamente lhe anteviu as glórias futuras e a profícua caminhada, beirando hoje os noventa anos em esplendorosa atividade.

2. O INÍCIO

O Grande Zé, na verdade, iniciou a carreira artística com apenas oito anos de idade quando foi convidado pelo maestro Arlindo Cruz para se apresentar profissionalmente em um cinema na cidade cearense de Juazeiro. Atuou posteriormente na orquestra do maestro Arlindo Cruz em apresentações na cidade de Crato, CE. Aos 11 anos de idade já era membro da Banda Municipal de Juazeiro. Em 1938, depois de passar um tempo em Fortaleza, retornou a Juazeiro, e passou a atuar em bailes e também em cinemas. Pela mesma época, Zé tornou a encontrar o primo Luís Rosi que na ocasião estava liderando uma jazz band e seguiu novamente com ele para Fortaleza. Na capital passou a atuar como violonista na Ceará Rádio Clube. Logo, o jovem músico criaria um regional, que atuou nessa importante emissora cearense durante quatro anos.

3. O RECONHECIMENTO

O reconhecimento ao talento do Zé Menezes não parava de crescer em todo o Ceará. Em 1943, quando o mundo inteiro entrava em guerra, o nosso Zé foi ouvido pelo mais importante radialista do Rio, o locutor paulista César Ladeira, que visitava em turnê artística o Ceará. E por ele foi convidado a vir para a Capital Federal. No Rio, chegou, viu, venceu. Contratado pela Rádio Mayrink Veiga, passou a dirigir dois programas semanais. Nos quais exibia seu gênio vário e surpreendente, tocando violão, cavaquinho, viola, guitarra, bandolim, violão tenor e banjo. É claro que alcançaria em muito pouco tempo bastante sucesso e reconhecimento. Por essa época, o já famoso multiinstrumentista atuou com Djalma Ferreira, Oscar Belandi e Chuca Chuca, no Hotel Quitandinha em Petrópolis e, em 1945, passou a fazer parte do grupo Milionários do Ritmo. No ano seguinte, outras vitórias: atuaria na Rádio Globo e também na boate Casablanca.

Em 1947, finalmente, mais um degrau decisivo de sua consagração foi empreendido: contratado pela Rádio Nacional, passou a atuar ao lado de Garoto no programa “Nada além de dois minutos”. Ainda na Rádio Nacional, a maior emissora da América Latina naquele final dos anos 1940, era solista e participava de todas as formações de orquestras, acompanhando grandes artistas da época. Na PRE-8, Zé Menezes permaneceu por mais de duas décadas. Certamente que seu lado de compositor logo afloraria: em 1948, sua primeira composição gravada, o samba “Nova ilusão”, parceria com Luiz Bittencourt, foi lançado pelo grupo “Os Cariocas”, na gravadora Continental. Esse samba, inclusive, acabou se tornando o prefixo das apresentações do grupo “Os Cariocas”. No ano seguinte, outra pepita, o samba-canção “Mais uma ilusão”, também com Luiz Bittencourt, foi gravado por Nuno Roland, na Continental. Na década de 1950, alcançou sucesso e farto reconhecimento crítico nas gravações como instrumentista, chegando a ter alto número de vendagem de discos. Uma carreira fonográfica cuja importância precisa ser melhor e mais acuradamente avaliada. Querem conferir?

Em 1950, seu choro “Sereno”, com Luiz Bittencourt foi gravado por Chiquinho do Acordeom, na Todamérica. Ainda no mesmo ano, gravou em solo ao violão tenor, na Todamérica, os choros “Comigo é assim” e “Seresteiro”, de sua autoria e Luiz Bittencourt. Em 1951, registrou na Sinter, com seu conjunto, o baião “Não interessa não” e o choro “Vitorioso”, com Luiz Bittencourt. Logo gravaria também, em solo de cavaquinho, o choro “Encabulado”, de sua autoria e Luiz Bittencourt. Também no mesmo ano, o baião “Não interessa não” foi regravado com sucesso por Heleninha Costa e César de Alencar, e o samba “Tudo azul”, com Luiz Bittencourt, foi lançado pelo grupo vocal “As Moreninhas”.

Em 1953, o seu já carro-chefe “Nova ilusão” foi regravado por Dick Farney e quinteto. Em 1954, Menezes inovaria ainda mais: aproveitando a moda dos ritmos latinos gravou o mambo “Um, dois, três”, de sua autoria, lançando quase simultaneamente pela Sinter o LP “A voz do violão”.

Já de 1955 é a gravação, pelo selo pernambucano Mocambo, do choro “Maluquinho”, de sua autoria, e do baião “Meu xodozinho”, com a nova parceira Neusa Rodrigues.

Em 1957, lançou o “Bolero napolitano”, de sua autoria e Luiz Bittencourt, e o choro “Faz que vai”, este sem parceiro, mesma ocasião em que registrou mais um elepê individual, “Ritmos em alta fidelidade”. Ainda no mesmo ano, gravou na Mocambo, com o grupo “José Menezes e Seus Melodistas”, o choro “Temperado” e o samba “Gafieira é comigo”, ambos de sua autoria.

4. O ENCONTRO com RADAMÉS

Poucos anos antes, sua biografia aponta um dado importantíssimo: em pleno auge da Rádio Nacional, conheceu o maestro Radamés Gnattali e logo passou a integrar o Quarteto Continental, uma formação musical de excelência, arregimentada por Radamés com os melhores músicos da emissora e formada por ele, Radamés Gnattali, Luciano Perrone e Vidal. Posteriormente, o grupo passou a ser um quinteto com a entrada de Chiquinho do Acordeom. Depois, Aída Gnattali, irmã de Radamés, também integrou o grupo, criando-se assim o Sexteto Radamés Gnattali. Com o Sexteto, o nosso intimorato cearense pode conhecer o mundo, viajando em 1959 para a Europa e apresentando-se na BBC de Londres, na sede da Unesco em Paris, no auditório principal da Universidade da Sorbonne, alem de atuar em programas de radio e de televisão de emissoras na Itália, Portugal e Alemanha. De volta ao Brasil – e como era mesmo de se esperar – ele foi o primeiro a registrar o concerto de Radamés Gnattali para guitarra elétrica dedilhada, o “Concerto carioca”, que lhe foi dedicado por Radamés e gravado com acompanhamento da Orquestra Sinfônica Continental. Em 1960, o nosso violonista, já então considerado um dos melhores do país, apresentou-se com a Orquestra da Rádio Nacional, executando a Introdução da série de “Choros”, de Villa-Lobos, contando com a presença do compositor e maestro na platéia.

5. OS VELHINHOS TRANSVIADOS

Outro momento importante em sua riquíssima carreira fonográfica foi o lançamento do primeiro LP da série “Os Velhinhos Transviados”, gravado com seu próprio conjunto, que tinha exatamente esse nome. No LP, cujo nome remete aos tempos jovens da bossa nova, antepondo-se aos velhos músicos da era fulgurante da radiofonia, Zé Menezes gravou, entre outras, composições clássicas como “Nós os carecas”, de Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti; “Pierrot apaixonado”, de Heitor dos Prazeres e Noel Rosa; e “Estão batendo”, de Gadé e Walfrido Silva. Logo depois ainda gravaria o LP “Os Velhinhos Transviados – Sensacionais” e em 1963, os LPs “Os Velhinhos Transviados – Fabulosos” e “Os Velhinhos Transviados – Espetaculares”. Em 1964, no LP “Os Velhinhos Transviados – Bárbaros!”, gravou músicas de grande sucesso na época como “Mas, que nada”, de Jorge Ben; “Rio”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli e “Zé de Conceição”, de João Roberto Kelly. Essa série foi um dos pontos altos de sua discografia. Só para que se tenha uma idéia mais precisa: com o grupo Os Velhinhos Transviados gravou 13 LPs.

6. SAINDO DO RADIO, INDO PARA A TEVÊ

Na década de 1970, o Grande Zé integrou a Orquestra da Rede Globo de Televisão como primeiro guitarrista. Nessa emissora, compôs o tema de abertura do programa “Os trapalhões”, até hoje um clássico no seu extenso repertório. Em 1993, nosso herói participaria do projeto “Viva Garoto – Projeto Memória Brasileira”, em homenagem ao instrumentista Garoto, tendo participado do disco, que foi lançado pelo Núcleo Contemporâneo, na faixa “Nosso choro”, de Garoto, interpretada juntamente com o violonista Dino 7 Cordas. Dois anos depois, lançaria outra jóia: o CD “Chorinho in concert”, pela gravadora CID, no qual interpretou, além de clássicos da MPB como “Carinhoso”, de João de Barro e Pixinguinha e “Primeiro amor”, de Patápio Silva, músicas suas como “Encabulado”, “Seresteiro”; “Comigo é assim” e “Tudo azul”, parcerias com Luiz Bittencourt, além de “Aconchegante”; “Chôro de uma corda só”; “Menezeando”; “Intro para Garoto”; “Tropeçando”;” Tô querendo”; “Contrapontando” e “Meus oito anos”, todas de sua autoria. Em 1998, gravou o CD “Relendo Garoto”, só com músicas do violonista paulista, com quem tocou com muito sucesso na década de 1940. Nesse CD que considero antológico, estão incluídas obras como “Quanto dói uma saudade”; “Meditando”; “Vivo sonhando”; e “Tristeza de um violão”. Pouco depois, atuou como solista convidado de grandes orquestras, como a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – OSPA, na abertura do Mercosul. Como compositor, suas músicas foram gravadas por grandes cantores como Os cariocas, Emílio Santiago, Ademilde Fonseca ou Tom Jobim, e até Billy Eckstine, que registrou em inglês o clássico “Nova ilusão”, sua música mais celebrada.

7. PARA ALEM do ANO 2000

Quando o ano 2000 chegou, o nosso Grande Zé ingressaria (logo depois) na faixa dos 80 anos de idade. Cansado, aposentado, de pijamas e chinelos? Qual o que… muito pelo contrário: lépido e fagueiro, o pequenino cearense se agiganta a cada novo trabalho e surpreende, exibindo irrequieta vitalidade. Projeto idealizado e produzido por Luiz Rocha, a quem se deve necessariamente tributar-se aqui uma palavra de gratidão, até pelo entendimento preciso que tem do artista que ele empresaria com paixão e competência, Zé Menezes acaba de concluir o projeto “Zé Menezes – Autoral” (gravação de três CDs e um CD-Rom contendo seu acervo digitalizado: músicas, partituras, biografia, vídeos, fotos) que lhe perfilam quase toda a obra, e ainda, todo este material está disponibilizado no site www.zemenezes.com.br

Uma obra ciclópica de multiinstrumentista e de compositor, em que todos os gêneros musicais foram experimentados. Além, por certo, e deixei por último a citação, sua atuação como arranjador. E que arranjador! Só o conhecimento acumulado de uma longa vida dedicada à música poderia exprimir tanta qualidade na trama de buscar sonoridades, de agrupar naipes, de desfiar intervenções criativas de instrumentos numa melodia.

Por Ricardo Cravo Albin (texto de 2010)

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